FuiAlém: 3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no Japão

Por Tiago Archela*

Ter editado uma plataforma de conteúdo de viagens, trabalhado numa companhia aérea, visitado mais de 10 países (e morado no exterior por dois anos) deveria fazer de qualquer um isento de falhas ao viajar, certo? Pode até ser. Mas comigo, amigos, não.

A verdade é que se a experiência não me deixou à prova de roubadas, fez com que elas se tornassem mais, digamos assim, conscientes.

A ida ao Japão foi, talvez, o projeto mais planejado da vida adulta. Meses e meses estudando, economizando, falando com gente que já tinha ido, fazendo reservas.
Tudo pra chegar lá e sacar que é, realmente, diferente de tudo que a gente já tinha visto.

Aqui, conto algumas ciladas e alguns acertos dessa experiência. Vem comigo:

↑ Aos 45 do segundo tempo: chegamos em Kyoto no meio da tarde de uma sexta. Descansamos um pouco, lavamos algumas roupas na lavanderia do hotel e decidimos ir paro templo Fushimi Inari-taisha já no fim da tarde. Quando chegamos lá, percebemos ter feito um acerto duplo: o sol já tinha baixado e, embora o tempo continuasse úmido e ainda abafado, estava um pouco mais fácil de encarar a caminhada morro acima. E o melhor: estava relativamente vazio. Logo na entrada, encontramos bastante gente, claro. Mas conforme a gente ia avançando, era cada vez mais frequente termos o caminho de toris só pra gente. E às vezes ainda tinha a felicidade do sol que se punha entrar, causando um baita efeito pra nossa caminhada. Foi bem mágico.

3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no Japão

 

↓ Lost in Occidentalism: um dos pontos mais planejados da viagem era um drinque no New York Bar do Park Hyatt. Até revimos Encontros e Desencontros uma semana antes de embarcar. Fomos pra lá na última noite antes da volta ao Brasil. É bonito? É. A vista é linda? Aham. Mas o que não te contam: é (muito) cheio, super posh e overpriced (numa cidade que não é exatamente em conta). Valeu? Valeu. Ia ficar a sensação de faltar alguma coisa se não tivesse ido até lá. Mas nem de longe é uma das coisas mais bacanas da viagem.

↑ Dê um rolê: mais cedo ou mais tarde, o fuso vai bater. No terceiro dia em Tóquio, primeira parada da viagem, veio. Tentei disfarçar. Aconteceu, não deu pra segurar. A insônia tinha chegado forte. Resolvi sair pra uma corrida, numa cidade ainda vazia, pouco antes das 6 da manhã. Atravessar um Shibuya Crossing vazio, subir por Harajuku e chegar a Shinjuku que ainda começava a acordar foi ter um ponto de vista diferente desses lugares, sempre agitados e apinhados. Na volta pra Shibuya, onde estava hospedado, pensei em cortar pelo Yoyogi Park. Ao entrar, um guarda me indicou que não era permitido correr ali. Na verdade, tinha entrado pelo Meiji Shrine Kaguraden. Resolvi seguir caminhando. E tive esse presente, só pra mim:

3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no Japão

↓ Perder para ganhar: de São Paulo a Tokyo, ao todo, são mais de 23 horas de vôo. É muita coisa. Coloca aí: imigração, alfândega, as horas antes do embarque, trajeto casa-aeroporto-hotel isso pula fácil pra mais de 30 horas. Por isso, a gente decidiu perder um dia no Japão. E parar no ~meio do caminho~ na ida. Fomos via Nova York. Chegamos lá num dia pela manhã, demos uma volta, dormimos uma noite e no dia seguinte, pela manhã, partimos pra Tokyo. Chegamos um pouco menos cansados, conseguimos sair pra uma volta e a adaptação foi um pouco menos difícil. O resto, a pira boa que é estar no Japão cura.

↑ Enjoy the silence: uma das coisas que mais chamou atenção é que, apesar do mundo de gente-publicidade-led-e-outros-estímulos-gerais, o que rola ali é um caos muito organizado e muito, muito silencioso. Os trens, em geral, são bastante silenciosos. Mesmo em horário de pico, com gente saindo pelo ladrão. Quando tem voz alta, pode sacar: é turista. Além disso, uma coisa que nunca havia passado é essa distância de fuso com o ocidente. Desde umas 10 da manhã até umas 6 da tarde, não tem Whatsapp chegando. Não tem email. Os portais não rodam a home. As redes sociais têm pouquíssima atualização. Leva um tempo pra sacar, mas isso ajuda muito a estar cem por cento presente na viagem. Aproveite <3

3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no Japão

 

↓ Nobody ever mentions the weather can make or break your day: quando a minha companheira e eu começamos a planejar a viagem, escolhemos por uma janela de dias que seria viável pelo nosso período de férias e que coincidisse com um feriado, pra dar aquela esticada. O clima no Japão varia muito conforme os meses. E a gente já sabia que a época que escolhemos era muito próxima da chamada temporada de chuvas. Como a gente lidou? Bom, era a oportunidade de usar a capa de chuva maravilhosa que a gente tinha comprado uns anos atrás em Copenhagen. E mais que isso: de ir escolhendo, dia a dia, a programação que a a gente ia fazer, de acordo com a previsão do tempo. Essa flexibilidade fez com que a gente aproveitasse um dos únicos dias de solzão aberto dos nossos 10 em Tóquio pro meu debut na terra do Mickey San. Optamos pelo Disney Sea, parque exclusivo do Japão. Valeu cada yen e cada sorriso. O Tiago de 1995 ficaria amarradão em saber que esse dia aconteceu.

3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no Japão


Dicas trem bala:

_Não, eles não falam inglês. E não tem Wi-Fi em todo lugar. Optamos por alugar um modem de bolso e ter acesso 24×7. Você retira no aeroporto na chegada e devolve na partida. Não falhou em momento nenhum. Escolhemos esse aqui.

_JR Pass é 99% anjo, perfeito. Mas não vai te cobrir em todos os deslocamentos. Chegando, compre um cartão Pasmo ou Suica para as linhas que não aceitam. E ainda rola usar nas vending machines. 🙂

_Várias lojas têm tax free. Só ver o selo na porta. Mas você vai precisar apresentar seu passaporte. A boa notícia é que nunca antes na história desse viajante o sentimento de segurança foi tão grande. Se for, vai na paz.

_Tadao Ande-se: Naoshima é das coisas mais lindas que já vi. Meio chata de chegar, puxada pra se hospedar, mas vale cada momento passado na ilha. E muito por conta das inúmeras construções do Tadao Ando, incluindo hotéis-museu.

3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no Japão


3 ciladas e 3 acertos de Tiago Archela no JapãoTiago Archela é jornalista formado, mas sempre esteve ao lado de marcas como Itaú, LATAM Airlines e QuintoAndar na construção de plataformas de conteúdo e experiência. Pós-Japão, foi para o outro lado da força e hoje é estrategista de conteúdo na Globant, consultoria de tecnologia. Para um pouco além do clichê “adora viajar”, em 2016 se mudou de mala, cuia, companheira e duas gatas maravilhosas para Santiago, quando tocou a plataforma de conteúdo Vamos/LATAM– aí, estar em movimento passou a ser parte importantíssima do estilo de vida.

Viajar bem pra mim é provar de tudo que esteja disponível. Interagir com lugares, com pessoas e consigo mesmo. É voltar menor do que foi, porque o mundo se agranda cada vez que a gente conhece mais dele. É ter conforto na medida pra aproveitar. E desconforto suficiente pra querer voltar pra casa e planejar a próxima. E não deixar prato algum sem ser provado.


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