Você viaja para quê?

Por Beatriz Guarezi, da Bits to Brands

 

Você conhece a teoria da cauda longa? Construída por Chris Anderson, ela basicamente diz que a evolução da internet promove uma diversidade muito maior no que consumimos – seja conteúdo ou produto.

Isso porque se antes o cinema era feito somente de “blockbusters” e a música de “top hits” na rádio, os serviços e marketplaces digitais permitem que cada um ouça ou assista o que bem entender, quando quiser.

É a lógica do nicho versus mainstream. E se antes estávamos presos ao mainstream, hoje temos infinitas possibilidades de explorar todo tipo de nicho. De música pop sul coreana a programas no Youtube de nonnas italianas fazendo massa (Pasta Grannies, eu amo).

Exceto quando o assunto é viagem.

Seguindo essa lógica, o acesso facilitado a passagens, hotéis e roteiros deveria nos espalhar pelos mais diversos lugares do mundo.

Mas a impressão é que as pessoas superlotam os mesmos pontos turísticos pelo mundo. O fenômeno Perrengue Chique não me deixa mentir – uma conta no Instagram que foi de zero a um milhão de seguidores em menos de um ano, só compartilhando lugares superlotados e experiências frustradas em viagens.

E por falar em Instagram..

Apontada como o grande guia de viagem dos últimos anos, a plataforma criou um novo critério quando o assunto é escolher um destino – será que ele é “instagramável”?

Só que “Instagramável” pouco tem a ver com ser bonito ou interessante, e sim com a sua capacidade de ser editado e cortado até parecer perfeito.

Assim se forma o ciclo:

1. A gente vê um destino “perfeito” no Instagram.
2. Investe as economias em uma viagem pra lá, menos para conhecer e mais para tirar uma foto parecida com aquela.
3. Chega lá e percebe que o trajeto ou o próprio lugar são difíceis de acessar, seja por causa de grupos de turistas com pau de selfie, aglomeração de gente ou tempo feio (ou todas as anteriores).
4. Mesmo assim, a gente tira uma foto, corta, edita e filtra, posta com uma legenda sobre como a vida é incrível.
5. Alguém vê o destino “perfeito”, compra a passagem, e assim sucessivamente.

Expectativa x Realidade

O que o Instagram não mostra é a fila de gente em busca de uma foto nesse ponto da Trolltunga, na Noruega. Aliás, cada vez mais gente. Entre 2009 e 2014, o lugar foi de 500 pra 40 mil visitantes. Fotos e informação do National Geographic.

Muitas viagens têm sido repletas de frustração não porque viajar é ruim ou porque os destinos mais populares são desinteressantes – mas porque as expectativas são completamente irreais.

A gente chega nos lugares esperando vê-los como em um post de Instagram, e não vivenciá-los como eles são de fato.

Aliás, a gente chega nos mesmos lugares, porque viajar tem se tornado menos sobre nossos desejos e personalidades, e mais sobre mostrar para o mundo que estamos ali.

E isso não é saudável.

Não é saudável para essas cidades que, uma vez paradisíacas, têm sido degradadas ambiental e socialmente pela superlotação.

Não é saudável para nós como indivíduos, porque muita gente tem se colocado em risco para tirar fotos “perfeitas” – risco de endividamento e alguns até risco de vida, se esticando em parapeitos para tentar conseguir um ângulo sem ninguém atrás.

E não é saudável para nós como coletivo, a medida em que nos tornamos homogêneos, buscando a mesma estética, os mesmos padrões, os mesmos destinos.

Sendo que, ao melhor estilo “cauda longa”, o mundo é um lugar cada vez mais acessível de ser explorado, e o resultado disso deveria ser uma diversidade de destinos, de lugares, de imagens.

Se uma pessoa não é igual a outra, por que tantas viagens buscam ser?

Perrengue chique é engraçado e ter muitos likes é legal, mas viajar é mais que isso.

É sair completamente da nossa bolha e experimentar outras realidades.

É auto conhecimento, porque cada lugar é vivenciado não como ele é, mas como nós somos.

Viajar é um costume de séculos, que a tecnologia e as marcas deveriam potencializar – e não padronizar.

E enquanto é fácil responsabilizar o Instagram, não é a plataforma que vai resgatar o melhor das viagens. É você.

Se perdendo pelas ruas de um lugar desconhecido a pé. Visitando uma cidade vizinha à mais turística, mesmo que ninguém que você conhece tenha ido. Tirando fotos para compartilhar experiências – sem filtro, sem cortes e sem falsas expectativas.

Nas suas próximas férias, vá além.

E essa sou eu, num desses lugares tão incríveis quanto incrivelmente disputados, depois de 2h numa van para chegar lá, tirar fotos e ir embora.

Também quero rever meu jeito de viajar em 2020.


Sobre a viajante:

*Beatriz Guarezi é estrategista de marcas e criadora de conteúdo. Escreve semanalmente a newsletter Bits to Brands, onde reflete sobre branding, tecnologia e comportamento com outras milhares de pessoas.

Viajar bem, para mim, é sentir frio na barriga ao embarcar e a tristeza ao fazer as malas para a volta. É a certeza de que os momentos (e a andança) entre um e outro me transformaram de alguma forma.

 

Tagged