Por dentro do Tiny Desk Concerts, em Washington: a mesa de trabalho mais cool dos EUA

 

Se você curte música, provavelmente já assistiu no Youtube alguma apresentação no Tiny Desk Concerts. O jornalista Heitor Flumian foi para Washington, nos Estados Unidos, onde acontecem as gravações, e assistiu ao pocket show ao vivo. Agora, ele conta para o guia além como foi a experiência.

Por Heitor Flumian*

Uma das primeiras coisas que faço depois de ouvir (algumas vezes seguidas) uma música que me arrebata de imediato é digitar no Youtube o seu nome, seguido de uma expressão importante: ao vivo/live/en vivo. O interesse pela versão fora do estúdio deve ter a ver com uma combinação de busca por criar certa intimidade com a/o artista e a curiosidade de saber se o som é tudo isso mesmo na vida “real” – em algum lugar, ainda tenho as fitas em VHS com gravações de shows em festivais como o Glastonbury, na Inglaterra.

 

 

Já há alguns anos, as sessões do Tiny Desk Concerts se tornaram referência não só de versões intimistas de hits conhecidos, mas também de um meio para descobrir novas bandas. É muito fino o som feito naquele cenário bagunçado, composto por estantes abarrotadas de livros, LPs, pôsteres, máscaras, canecas e tralhas; talvez os músicos do mundo todo que por ali passam — de gêneros distintos, do hip-hop ao jazz, passando pelo indie rock, o folk e o tambor afro venezuelano — se sintam à vontade como se estivessem tocando em seus quartos da adolescência. Certo é que em dezembro do ano passado, dias antes de embarcar para uma reportagem em Washington DC, descobri que o tal cenário fica em um prédio no centro da cidade. Mais especificamente, na baia de trabalho de Bob Boilen, 66 anos, criador e apresentador do Tiny Desk e de outro programa de rádio do grupo de mídia National Public Radio (NPR), com quem marquei uma entrevista.

Tiny Desk Concerts

Na companhia do fotógrafo Jorge Lepesteur, chegamos em cima da hora e tivemos que driblar dezenas de funcionários de outros departamentos e andares que costumam lotar o piso em dias de gravação. As sessões duram, em média, 20 minutos, e para acompanhá-las in loco a dica é participar de eventuais tours pela empresa e torcer para estar ali na hora certa.

Por sorte, conseguimos nos acomodar sentados no chão a meio metro dos instrumentos posicionados, a tempo de entender que o cenário é uma ilha colorida em meio a uma enorme redação de paredes brancas, e que a magia acontece em pleno expediente mesmo. Bob andava pra lá e pra cá tão ocupado quanto animado. É que esse ex-engenheiro de som, que já fez parte de algumas bandas nos anos 80, pode se considerar um cara de sorte. Além da curadoria do projeto, seu ofício inclui ir a mais de 400 shows por ano, o que significa compartilhar boas histórias com músicos do mundo todo que, não raro, se tornam amigos — Rodrigo Amarante é um que já passou em sua casa para uma apresentação especial.

Bob Boilen
Foto: Jorge Lepesteur

“Em Washington, há pessoas que apreciam demais a música e, durante os shows, prestam atenção de verdade. Isso não acontece em outras partes do país, em que é comum ver gente conversando e sendo um tanto mal-educada”, conta Bob, que nasceu em Nova York e vive na capital norte-americana desde os 15. A ideia do Tiny Desk, aliás, surgiu justamente em meio a um show, uma década atrás.

“Eu e um colega de trabalho estávamos em um bar em Austin durante o festival South by Southwest (SXSW) e queríamos ver a apresentação da cantora Laura Gibson, que tem uma voz muito suave e distinta. Mas estava passando um jogo de basquete na TV e com o barulho das pessoas torcendo a gente mal conseguiu ouvi-la. No fim da noite, meu amigo, brincando, perguntou a ela: ‘ei, por que você não faz um show na nossa redação?’”, lembra. Meses depois, lá estava Laura para a primeira sessão; hoje, são mais de 800, com milhões de views no Youtube.

Naquela tarde de inverno, foi a vez do Blood Orange, pseudônimo do compositor e multi instrumentista britânico Dev Hynes, cujo trabalho, apresentado ali com ótimos músicos de apoio, mescla hip-hop, soul, jazz, r&b e música eletrônica. O silêncio só foi quebrado pelas palmas ao final de cada música, e se instalou, de vez, quando o show acabou e as pessoas retornaram, um tanto extasiadas, aos seus lugares e aos seus fones de ouvido. Menos Bob: ele tinha um almoço com os novos amigos.


Sobre o viajante:

Heitor FlumianHeitor Flumian é jornalista. Foi repórter da Trip Editora durante cinco anos, nos quais assinou reportagens nas revistas Trip, Tpm e GOL Linhas Aéreas. Já colaborou com veículos como revista Serafina e The Summer Hunter e, atualmente, se dedica à literatura e a roteiros de projetos audiovisuais. De vez em quando posta algo em sua página no Medium.

“Viajar bem, para mim, é estar inteiramente entregue ao lugar e a suas particularidades. De preferência, sem 4G e com um bom livro na mochila.”

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