Belém Assombrada parte 1: dicas de programas fora do comum por @tantotupiassu

Convidamos o advogado e escritor Fernando Gurjão Sampaio*, mais conhecido nas redes como @tantotupiassu, para contar um lado de Belém que pouca gente de fora conhece: o assombrado. Mas, calma, não precisa se assustar.

As imagens são do fotógrafo Wagner Mello*.

Um passeio pelo mundo das visagens de Belém

“Histórias de visagem povoam-me a vida desde que me entendo por gente. Esses relatos, talvez característica do belenense, são quase onipresentes por aqui. Quem nunca viveu uma história assustadora, atire a primeira garrafa de água benta. E, quem não viveu, certamente conhece quem tenha vivido.

Muita gente pergunta de onde vem tamanha convivência com o outro mundo. Por quê são tantas as histórias de assombração contadas pelo povo deste norte?

Vejam bem… a história de Belém abriga literalmente tudo. Massacre de indígenas? Tivemos. Massacre de europeus? Também. Revolta popular com quase 40 mil mortos? Claro. E escravidão, e guerras, e epidemias. Também vastos de riqueza, sempre. E muita pobreza e influências, risonhas e lamentosas, de todos os lados. Some a isso as entidades, do bem e do mal, que povoam rios, igarapés, florestas e matas e terás, por fim, o resultado: muitas visagens.

Isso em mente, cá estou com a árdua missão de criar um breve guia de viagem especialmente para aterrorizar e informar sobre as andanças pela cidade.

1. Feira do Açaí e antigo necrotério

Digo sempre que qualquer passeio pelo Ver-o-Peso deve começar pela Feira do Açaí. Melhor ainda se for bem cedinho, justo no horário em que diversos barquinhos aportam, carregados do que a escritora Eneida de Morais chamava “os baguinhos cor da noite”, o açaí.

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A Feira abastece quase todo o açaí consumido na cidade, o que explica o rebuliço quase enigmático de vendedores e compradores negociando em código secular. E, da mesma forma que hoje chega o açaí, antigamente chegavam corpos, pelos arredores da feira.

Bem no ângulo da Feira com o cais, aprecie um prédio bonitinho, um antigo necrotério, um dos primeiros de Belém. Em uma sociedade regida e cercada por águas, a morte ao longo dos rios era depositada ali, para que a lei desse tratamento adequado aos corpos.

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Dizem que, se você chegar cedo, o sol ainda a nascer, é capaz de ver, além das negociações, alguma visagem que observa, secularmente, o movimento nervoso dos barquinhos de açaí.

Apesar de a Feira do Açaí estar incluída no Complexo do Ver-o-Peso, optei por segmentar a dica em duas, justamente para marcar a existência do antigo necrotério, hoje esquecido.

Endereço: Tv. Marquês de Pombal, 44 – Campina


2. Ver-o-Peso

O Ver-o-Peso é superlativo: um dos mercados públicos mais antigos do Brasil (fundado em 1625); maior feira ao ar livre da América Latina; uma das sete Maravilhas do Brasil; capacidade para abastecer quase toda a capital paraense.

O Complexo é formado pelo Mercado de Peixe, Mercado de Carne, Praça do Pescador, Doca das Embarcações, Pedra do Peixe, Feira do Açaí e Feira Livre.

O legal aqui é se perder por entre as barracas, aproveitar todos os cheiros, cores e gostos do local. Não perca a arquitetura em ferro fundido dos mercados de Carne e de Peixe, estruturas vindas integralmente da Inglaterra, para serem montadas aqui; não deixe de provar os sucos, na beira do rio; aproveite o vento da baía, atente no barulho de popopó dos barcos; planeje comprar algumas lembrancinhas, onde preços e variedade fazem diferença. Faça foto das frutas e dos peixes, cheire o que puder e visite as erveiras, bruxas bondosas, guardiães da sabedoria milenar das florestas.

Sobretudo, apesar da proximidade da Estação das Docas, almoce por ali. São opções, para todos os gostos e bolsos, mas recomendo fortemente a Barraca da Lúcia (chegue cedo e garanta mesa). Almoçar observando a peculiaridade do mercado é experiência única.

Enquanto se delicia com o filé de filhote, imagine os passos de outrora, pisados por estes mesmos caminhos, desde quase a fundação de Belém. O Ver-o-Peso foi chão de inúmeras batalhas e mortes, principalmente na época da Cabanagem – e parece que alguns espíritos inconformados ainda perambulam por lá.

Depois, de pança cheia, siga até a Estação das Docas.

Endereço: Av. Blvd. Castilhos França, S/N – Comércio


3. Estação das Docas e Ruínas do Forte de São Pedro Nolasco

A Estação das Docas é um complexo de restaurantes, lojas, bares e espaços culturais, erguido no que era o vetusto Porto de Belém. Para tanto, foram reformulados três gigantescos galpões de ferro fundido, também produzidos na Inglaterra.

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Se seguir esse roteiro à risca, aproveite para se deliciar com os sorvetes de famosa sorveteria Cairú, a preferida dos paraenses. Prove os diversos sabores, e, quando se decidir, procure um local para sentar e aproveitar a vista, como disse Mario de Andrade, em estada em Belém no ano de 1927, sopitando um sorvete de bacuri.

Agora, falando do que também realmente interessa: essa área do Porto ficou inativa e abandonada durante anos, apesar de armazenar marcas vivas da história secular de comércio entre Amazônia e Europa. Só com a reinauguração do complexo, transformado e restaurado, a área tomou fôlego e se tornou um dos principais pontos de apego de nativo e turista.

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vista do Forte do Castelo

Aproveite ainda para conhecer as ruínas do Forte de São Pedro Nolasco, onde funciona um anfiteatro. O Forte de São Pedro servia à defesa da cidade junto com o Forte do Castelo, e acabou desmoronando durante a cabanagem.

Endereço: Av. Mal. Hermes, S/N – Campina


4. Bairro da Campina e o cemitério esquecido

Saindo da Estação das Docas, caminhe pela Avenida Presidente Vargas e conheça o bairro da Campina, um dos primeiros de Belém. Aqui estão a belíssima Praça da República e, no meio dela, o suntuoso Theatro da Paz; mais lá, o Teatro Experimental Waldemar Henrique, o Bar do Parque e o Cinema Olímpia, que se orgulha de ser o mais antigo do país.

Esse bairro – justamente onde moro – tem uma curiosidade mórbida que me fascina: grande parte dele foi erguida por cima de um antigo cemitério, criado durante um violento surto de varíola que vitimou milhares de belenenses, em 1756.

Talvez superdimensionado no início, dado o trágico de tantas mortes, o cemitério foi caindo em desuso até virar um descampado quase esquecido. No boom da borracha, o gosto afrancesado dos ricos (muitos novos-ricos) belenenses clamava por reformas urbanísticas. A área foi então reclamada para realização de benfeitorias que marcaram definitivamente a cidade (há até suposição de que o nome do Theatro da Paz remeteria ao nome do antigo cemitério, sendo a nominação uma das condição da permuta).

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Praça da República – Theatro da Paz

Por conta do antigo cemitério, era comum que ossadas fossem achadas durante reforma de imóveis nas redondezas. O que ainda pode explicar as inúmeras histórias de vultos e presenças estranhas pelos corredores do Theatro da Paz, ou relatos sobre estranhas mulheres bebericando no antigo Bar do Parque, vultos que sumiam misteriosamente à primeira investida de marmanjos já meio ébrios.

As dicas do bairro são simples:

_Caminhe pelo túnel de mangueiras das calçadas da Praça da República; de preferência durante a chuva;

_Veja se consegue assistir a algum espetáculo no Waldemar Henrique; faça a visita guiada ao Theatro da Paz;

_Descubra a programação do Cinema Olímpia, sempre com excelentes filmes, e tente encaixar um horário para relaxar, ao assistir a uma boa fita.

Ao fim dessa saborosa investida, abanque-se no Bar do Parque – agora reformado e com nova administração – e imagine a riqueza da Belle Époque como se transitasse pelas ruas da cidade, no conforto de estupendas carruagens. Prove o pastel de rabo ou com o croquete de língua, que são deliciosos.

Dica extra: a cada dois meses acontece o Projeto Circular, ganhador do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do IPHAN, em 2018. O Circular reúne uma rede de parceiros atuantes nas áreas de artes e cultura dentro do Centro Histórico de Belém e em seu entorno imediato. O Projeto começou em 2013 e hoje conta com mais de 40 espaços, dentre galerias de arte, ateliês, pequenos restaurantes, lojas colaborativas, espaços coletivos ou ocupações de espaço público, como o Aparelho, que renovou o antigo Mercado do Porto do Sal.

Se estiver em Belém na próxima edição, aproveite e circule. Garanto: não vai se arrepender de tanta arte e calor humano pelas ruas de Belém.

Endereço Praça da República: Av. Pres. Vargas, 814 – Campina


5. Serzedelo Corrêa e seus três cemitérios

Lembra que falei do antigo cemitério, que deu lugar à Praça da República e ao Theatro da Paz?

Pois então…Foi encolhendo, encolhendo, até sua atual formatação, quando um espacinho reduzido foi consagrado como Cemitério da Soledade, na verdade, um quarteirão no centro de Belém. É uma área magnífica, cheia de mangueiras e arte tumular preciosa.

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Cemitério da Soledade

Só os mausoléus já valeriam a visita, prova flagrante da riqueza que abundou na capital paraense em diversos períodos. Aqui, inclusive, está enterrado um tetravô meu, o General Gurjão, que se mandou para lutar na Guerra do Paraguai e acabou morrendo de maneira, no mínimo, corajosa.

Finda a visita ao Soledade, atravesse a rua e conheça o primeiro cemitério judeu do Brasil – e, talvez, um dos menores do mundo. Essa necrópole data de 1842, tem somente 28 túmulos e recebeu corpos somente até 1915; encontra-se nos dias de hoje permanentemente fechada, mas é possível apreciar sua singularidade pelas grades da rua.

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Cemitério Israelita

E, se ainda não cansou de cemitérios, siga pela mesma calçada e contemple a Catedral Anglicana de Santa Maria, que preserva em seus jardins antigas lápides e obeliscos em memória dos ingleses que morreram por essas bandas.

Deixando atrás os cemitérios, prepare-se para visitar uma das praças mais bonitas do Brasil, a Praça Cônego Batista Campos.

Endereço: Av. Serzedelo Corrêa, 514 – Batista Campos


6. Praça Batista Campos e a Cabanagem

A Praça Batista Campos é um primor de paisagismo. A única recomendação a dar: solte-se, perca-se pelas alamedas; aproveite o clima bucólico; alimente os peixes.

Nessa praça, você encontra de tudo: pessoas se exercitando, crianças e casais a namorar, famílias passeando. Aproveite, perscrute as árvores imensas, olhe para cima, dê de olhos com o território das garças, que ocupam o cume de uma quilométrica sumaumeira. Neste momento, passe ligeiro, ou você levará uma lembrança talvez desagradável para casa.

Nas cercanias da Praça foi instalado o comando dos cabanos, quando da revolta contra o Império brasileiro. Por isso, foi batizada com o nome Cônego Batista Campos, um dos maiores líderes da revolta Cabana. No curso da luta, esse herói passou por maus momentos. Chegou a ser amarrado na boca de um canhão. Seria explodido. Na hora agá foi libertado pelas vozes do bom senso.

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Praça Batista Campos

Em um dos cantos da praça há uma torre inacabada de pedra, que lembra o torreão de um castelo medieval. Minha mãe assegura que no madeirame do teto ocorreu um suicídio. Um Pedro teria se enforcado ali por amor. Acabou aprisionado, no papel de alma penada, eternamente em balanço por dentro das grossas paredes de pedra. Por via das dúvidas, minha avó impedia que brincássemos por muito perto. Os estudantes do Grupo escolar José Veríssimo, situado na praça, juravam que Pedro, morto, chamava os nomes das crianças, em berros sumidos, em sussurros, e o resultado eram noites de febres misteriosas. Obviamente, isso jamais impediu que centenas de crianças brincassem no local, o que se repete até hoje, sobretudo à saída das escolas, ou nos finais de semana ensolarados.

Endereço: Tv. Padre Eutíquio, S/N – Batista Campo


Aguarde que logo mais sai a segunda parte do guia do Tanto de passeios assombrados por Belém! 


Sobre os viajantes:

 

dicas assombradas de belém

Fernando Gurjão Sampaio é paraense de Belém. Advogado e escritor, acredita que todos os lugares têm histórias que merecem ser contadas. Você o encontra no Twitter em @tantotupiassu.

“Viajar bem, para mim, é ter tempo para conhecer cada canto da cidade onde estou. Não gosto de viagem corrida. Quem coleciona histórias e vivências precisa de tempo para encontrá-las.”

 

 

Wagner Mello é cearense de Fortaleza, viveu em Santarém e mora em Belém. Economista de profissão, encontrou na fotografia sua arte. Fotografa o mundo por amor. Está também no Twitter: @wagner_mello1

“Viajar bem, para mim, é conectar minha alma a cada lugar que eu conheço. Voltar com o meu espírito enriquecido e cheio de registros: na mente, coração e …. no cartão de memória.”

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