Belém Assombrada parte 2: dicas de programas fora do comum por @tantotupiassu

Não leu a primeira parte? É só clicar aqui: Belém Assombrada parte 1: dicas de programas fora do comum por @tantotupiassu.


Convidamos o advogado e escritor Fernando Gurjão Sampaio*, mais conhecido nas redes como @tantotupiassu, para contar um lado de Belém que pouca gente de fora conhece: o assombrado – mas, calma, não precisa se assustar.

As imagens são do fotógrafo Wagner Mello*.

Um passeio pelo mundo das visagens de Belém – parte 2

7. FORTE DO CASTELO

De nome pomposo – Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém – foi erguido em 1616, quando da fundação de Belém. Logo se tornou peça fundamental de defesa da cidade, por conta da vista privilegiada.

passeios assombrados em Belém
vista do Forte do Castelo

Além das inúmeras batalhas ocorridas nas cercanias – inclusive massacre do povo Tupinambá – dizem que foi palco de execuções sumárias e de longas prisões. Das suas muralhas, você terá a melhor vista do Ver-o-Peso (e se você gosta de fotografia, enfoca nas embarcações tipicamente amazônicas que singram o rio, bem em frente à fortificação).

Atualmente, além dos antigos armamentos que ficam em exposição, o local também abriga o Museu do Encontro, que ilustra páginas sobre o período da colonização do Brasil.

Endereço: Praça Dom Frei Caetano Brandão, s/n – Cidade Velha


8. CASA DAS ONZE JANELAS E O GRITO DE SEUS PRISIONEIROS

A Casa das Onze Janelas abriga o Museu de Arte Moderna e Contemporânea, um dos mais importantes do Estado. A casa em si já foi morada de um senhor de engenho, hospital e prisão. Talvez esse passado conturbado tenha se refletido no romance Hortênsia, de José Marques de Carvalho, lançado em 1888 e que ambienta um terrível feminicídio nas dependências exatas do prédio, por conta de uma relação incestuosa.

Casa das 11 Janelas - Vista
Casa das 11 Janelas – Vista

Seguindo sua sina, a Casa serviu de prisão a presos políticos durante a Ditadura Militar. De tudo, os frequentadores mais assíduos dizem que, por vezes, ainda é possível escutar os gemidos e gritos de dor vindo das grossas paredes, talvez ecos perturbadores de um passado não tão distante, ou gritos de Hortênsia, quem sabe, assassinada por Lourenço, seu irmão, tomado de furor.

Aproveite também para visita o Museu Corveta, instalado em uma antiga embarcação da Marinha Brasileira, e de onde se tem vista quase completa da Casa.

Dica extra: além do Museu e seus belíssimos jardins, a Casa sempre abrigou um interessante restaurante. Há notícias de que, em breve, o espaço será novamente ocupado, desta vez por um chef santareno. Assim que o novo restaurante inaugurar, prometo que faço um adendo aqui. 

Endereço: R. Siqueira Mendes, s/n – Cidade Velha


9. ESPAÇO SÃO JOSÉ LIBERTO / ANTIGA PRISÃO

O Espaço São José Liberto, ou Polo Joalheiro, funciona no que já foi uma tenebrosa prisão, locus de violentas rebeliões e mortes.

O espaço foi erguido em 1749, para servir de capela aos frades capuchinhos. Acabou abandonado quando da expulsão dos jesuítas do Brasil. O espaço vazio foi rapidamente ocupado pelo governo brasileiro e passou a ter vários usos: olaria, quartel militar, depósito de pólvora, hospital e, por fim, cadeia pública.

Polo Joalheiro
Polo Joalheiro

Foram 150 anos como prisão, geradora de desconforto à população das cercanias, que não aceitava a prisão encravada bem no centro urbano. A cadeia foi desativada somente em 1998, após sequentes ondas de revoltas que abalaram Belém.

Em 2002 ressurgiu o atual espaço abrigando a Capela de São João (com auditório e palco de eventos culturais, como concertos de música sacra), ourivesaria, o polo joalheiro, a Casa do Artesão, o Museu de Gemas do Pará, o Memorial da Cela e o Jardim da Liberdade.

Cochicham pelos cantos que o projeto paisagístico, com diversos cristais espalhados pretendia abrandar a sina dos que aqui padeceram. Basta ler os relatos do Memorial da Cela para entender quão cruel era viver atrás dessas grades.

Mesmo com os gigantescos cristais que adornam o Jardim da Liberdade, há quem jure ouvir, tarde da noite, vozes dos antigos aprisionados implorando por um gole de água, pelo amor de Deus, ou clamores por libertação.

Endereço: Praça Amazonas, s/n – Jurunas


10. BONUS TRACK: COTIJUBA

Cotijuba é uma das 42 ilhas que integram o arquipélago de Belém. É simples de chegar: há barcos fazendo a rota todos os dias, saindo de Icoaraci ou do Ver-o-Peso.

Aventure-se. São quilômetros de praias quase intocadas, banhadas pelos rios da Amazônia. O local tem boa estrutura de hotéis, pousadas e restaurantes. Uma gostosura. Vale: reserve ao menos uma noite por ali.

Além da beleza, e do clima de interior (não existem carros na vila), Cotijuba tem estofo para constar neste brevíssimo guia: durante anos abrigou o afamado Educandário Nogueira de Farias, uma Colônia Reformatória para meninos e meninas abandonados ou delinquentes.

Em tempos pré-ECA, a solução mais simples para o ‘problema’ da delinquência infantil era enviar os pequenos para uma ilha isolada, onde ficavam à mercê de guardas e cuidadores violentos e, não raro, abusadores. Os relatos de crueldades no Educandário são de fazer regelar os ossos.

Você ainda pode sentir rastos disso tudo ao andar pelas ruínas do antigo prédio, que permanecem firmes, logo em frente ao porto. É fácil imaginar os refeitórios e dormitórios, assim como a dor de crianças jogadas à própria sorte no que chamavam inferno verde.

O relato que mais me choca é do menino que, absolutamente desesperado para fugir, para voltar a Belém, rebela-se, mete-se a remar, embarcado numa panela gigantesca, estranho barco solto às fortes maresias. Para infelicidade, já distante, as ondas acabam fazendo afundar a panela, morrendo o menino.

Esse passado ficou para trás – ou não ficou… – e hoje Cotijuba oferece momentos idílicos, próprios para relaxar após a correria das dicas acima, longe da loucura da Belém que não para, que nunca parou, cidade turbilhão de coisas, gentes, amor e sofrimento.


Sobre os viajantes:

 

dicas assombradas de belém

Fernando Gurjão Sampaio é paraense de Belém. Advogado e escritor, acredita que todos os lugares têm histórias que merecem ser contadas. Você o encontra no Twitter em @tantotupiassu.

“Viajar bem, para mim, é ter tempo para conhecer cada canto da cidade onde estou. Não gosto de viagem corrida. Quem coleciona histórias e vivências precisa de tempo para encontrá-las.”

 

 

Wagner Mello é cearense de Fortaleza, viveu em Santarém e mora em Belém. Economista de profissão, encontrou na fotografia sua arte. Fotografa o mundo por amor. Está também no Twitter: @wagner_mello1

“Viajar bem, para mim, é conectar minha alma a cada lugar que eu conheço. Voltar com o meu espírito enriquecido e cheio de registros: na mente, coração e …. no cartão de memória.”

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