#FuiAlém: Quênia, África

Por Paula Cristina Cardoso*

 

Não é fácil definir os critérios do que se enquadra em uma experiência transformadora, não é mesmo? Sabemos que as vivências de viagens são totalmente subjetivas – mesmo dentro da própria visão pessoal, conhecer um local diferente pode despertar aprendizados em muitas áreas de nossa vida.

Minha viagem ao Quênia, entre novembro e dezembro de 2019, rendeu muitos momentos marcantes. Separei duas histórias que têm como característica ter virado meu mundo de ponta cabeça, no bom sentido. Ou, como eu gosto de dizer, ter melhorado as minhas visões dos mundos – o interior e o exterior.

Sendo assim, contarei sobre Nai Nami e Umoja. A primeira é o tour em Nairóbi realizado por jovens em busca de transformações sociais. A segunda é o vilarejo de etnia Samburu habitado somente por mulheres que foram vítimas de violências e buscam reconstruir narrativas de vida.

 

Nai Nami – “Conheça Nairóbi pelos olhos de uma criança que viveu nas ruas”

 

fui-alem-quenia-2

 

Uma das experiências turísticas clássicas em viagens é passear pelo centro da cidade visitada. Em Nairóbi, encontrei Nai Nami, o tour que foge do convencional ao unir o passeio pela cidade à contação de histórias pessoais. Os guias – que são os próprios donos da empresa – Kissmart, Mrembe, Cheddaz, Donga, Ndee, Mwas e QuiQui passaram a infância e a adolescência em situação de rua e, hoje, compartilham as suas bagagens de vivências e de aprendizados no formato de uma jornada pessoal de sobrevivência.

A dinâmica prometida é a seguinte: dentre os sete guias disponíveis, um será o seu e de no máximo mais uma pessoa, para a experiência ser personalizada. O trajeto, de aproximadamente 3 horas, tem como itinerário o centro da cidade e a região próxima conhecida como Downtown – onde turistas não costumam ir sozinhos. A ideia é dialogar as perspectivas pessoais deles com as ruas e as construções da cidade. Estão incluídos, também, uma visita ao mercado de artesanato Kariakor e um almoço típico queniano.

Somada ao intuito de potencializar o turismo local, a missão deles é converter suas conquistas em ações que promovem transformação social nas favelas e nas ruas de Nairóbi.

O destaque para essa experiência ser considerada, por mim, bastante transformadora, é o próprio significado do nome Nai Nami: Nairóbi comigo. A equipe te proporciona uma verdadeira conexão emocional! Aliada à complexa habilidade de trazer leveza e descontração ao relatar assuntos tão delicados.

 

fui além quenia

 

Se você, assim como eu, ama transformar viagens em aprendizados tanto culturais quanto sociais, pode ter certeza: essa é uma experiência para adicionar na lista. Se você faz questão de conhecer diversas perspectivas acerca do local visitado, mais um ponto para a Nai Nami!

Alerta pandemia: devido à atual situação, está sendo realizado um tour virtual privado e ao vivo com duração de 1 hora. Informações disponíveis em nai-nami.com.

 

Umoja – lugar onde mulheres comandam e homens não são permitidos

 

fui além quenia 4

 

Umoja – Unidade no idioma suaíli – é um vilarejo habitado exclusivamente por mulheres que foram vítimas de diversas formas de violência, entre elas os casamentos forçados e a violência doméstica.

Localizado ao centro-norte do Quênia na Reserva Nacional Samburu, foi fundado em 1990, como forma de refúgio, por Rebecca Lolosoli – a matriarca – e mais 15 mulheres. Estabeleceu-se como uma organização social e econômica que luta por liberdade, autonomia e pelos direitos das mulheres no país. E que promove o acolhimento àquelas que querem reconstruir suas vidas.
Já dá para perceber que a história é transformadora por si só.

Hoje em dia, as mais de 40 mulheres que vivem lá são responsáveis por tudo! Elas quem constroem as casas, quem cuidam da alimentação e do rebanho. Produzem artesanato e administram o comércio. Cultivam uma grande horta comunitária e coordenam uma escola gratuita para crianças, até mesmo de outros vilarejos.

Não para por aí: elas realizam palestras a respeito de tabus, do bem-estar feminino e da ruptura com tradições que julgam maléficas a sua cultura.

Afinal, Paula, como você foi parar lá?

 

fui alem quenia

 

Houve um interesse instantâneo quando descobri Umoja. Inclusive, Rebecca é gerente e fundadora de um hotel na região: Umoja CampSite. O local hospeda turistas que se aventuram pela reserva, mas também abre as portas para visitas ao vilarejo.

Ao mesmo tempo, havia uma importante preocupação: a visita turística seria ou não uma invasão desrespeitosa? Após me inteirar melhor sobre a situação de Umoja, entendi que a visita daquelas e daqueles que acreditam em seu propósito era uma forma de contribuir com o seu fortalecimento, já que se encontra em um contexto atípico.

Encontrei só uma guia que realizava essa experiência – em um pacote de 2 dias. Amiga das moradoras, ela já havia ido várias vezes ao local. Expectativas criadas, mochila arrumada e voalá! Vivi momentos inesquecíveis.

A recepção foi muito acolhedora, com danças e cantos de boas-vindas. Nas horas seguintes, aprendi tanto sobre aquele modo de vida específico quanto sobre a cultura Samburu. Ao final, apaixonada pelos artesanatos maravilhosos, fiz compras e recebi alguns presentes como um gesto de carinho.

 

fui além quenia

 

A manhã do dia seguinte começou com um nascer do sol magnífico. Mais tarde, foi hora de aprender a fazer uma pulseira típica Samburu. O resultado? Rendeu boas risadas, já que minha capacidade era bem limitada. O que importou foi o momento de compartilhar experiências muito enriquecedoras. A despedida, antes do almoço, foi na verdade uma promessa: Obrigada Umoja, até logo.

Seria redundante da minha parte dizer por que meu mundo virou de ponta cabeça com essa vivência. Acredito que trocas de conhecimento, carinho, risadas e aprendizados em viagens são sempre importantes; mas a oportunidade de realizá-las no Quênia, em Umoja, foi definitivamente marcante.


Sobre a viajante:

Paula Cristina Cardoso, tenho 20 anos e estudo jornalismo na Universidade de Brasília. Após um processo de autoconhecimento, percebi que cursar medicina não era o que eu gostaria: na verdade, meu verdadeiro encontro se dá com o jornalismo. Atualmente, trabalho na Facto – Agência de Comunicação e em um projeto pessoal de fotografia, o @card.dos.

Apaixonada pelas diversas formas em que o jornalismo de viagem pode se manifestar, pretendo trilhar meu caminho por aí!

Viajar, para mim, é a união perfeita entre conhecer ao outro e a si. A oportunidade de aprender e evoluir sempre vai existir, independentemente do destino, basta ter o olhar cuidadoso e o coração aberto.

 

Tagged , ,