Marcelo Oséas e o desejo de mostrar o Brasil para o brasileiro

 

Há 9 anos, o paulistano Marcelo Oséas largou a carreira no mercado financeiro, onde atuava como economista, para se dedicar integralmente à fotografia, e com um foco em especial: a cultura brasileira.

Antes da pandemia, ele costumava fazer à trabalho cerca de 20 viagens por ano para registrar costumes de comunidades ao redor do país.

“Meu pai tinha livraria, cresci nesse contexto, sempre adorei arte. Percebi ao longo do tempo que eu tinha muita referência visual, de documentário de fotografia, e que a minha vontade era mesmo estar em campo e desenvolvendo aquilo que eu via nas revistas e nos livros”, conta.

“O que eu trago de mais valioso na minha mala são as próprias fotografias e poder mostrar o Brasil para o brasileiro.”

Sem poder viajar por conta do coronavírus, ele tem aproveitado a quarentena para “mergulhar” em seu material, reviver histórias e, a partir disso, criar conteúdo no Instagram e no Youtube.

 

marcelo oseas

 

“Fotografar é um exercício, e 70% do trabalho é pesquisa (imagética, do futuro e teórica sobre os assuntos que vou fotografar). Tudo para que as imagens estejam embasadas e principalmente que os impactos da fotografia estejam esperados ou controlados.

Quando você trabalha com formas de vida fora das grandes cidades, existe um conjunto de pré-conceitos que envolvem a comunidade, as questões locais, como eles querem se retratar ou que tipo de mensagem querem passar. Minha fotografia precisa ser muito consciente disso para não trazer nenhum dano para a comunidade mesmo que indireto.”

A seguir, ele relembra para o guia além três viagens que o marcaram:

 

Alter do Chão – Amazônia

Fiz uma viagem em janeiro de 2019 para esse local que vive dentro do imaginário brasileiro como uma fronteira, área desconhecida. A luz do Rio Tapajós é belíssima, a forma de viver é completamente vinculada à natureza.

 

 

Mesmo quando a gente visita uma comunidade que não se denomina como indígena, encontramos traços de uma forma de vida muito característica. Eles vivem em torno da água. Abaixo, a experiência de canoagem com a etnia indígena chamada Munduruku.

 

canoagem amazonia marcelo oseas

 

A região norte tem outros elementos que fazem parte da cultura local, como a farinhada, que é a extração da mandioca da raiz até a farinha e outros subprodutos como tucupi; e a colheita do açaí, que é visualmente belíssima.

 

farinhada

 

Dessa experiência nas comunidades do Tapajós, me chamou muita atenção o quanto o subjetivo faz parte da vida deles. A rotina nas grandes cidades nos faz olhar sempre para o prático, racional, e o norte nos mostra essa vivência mais vinculada aos mistérios da natureza.

Nordeste brasileiro

 

agreste marcelo oseas

 

Já fui para lá fotografar diversas vezes, mas meu projeto mais especial foi quando eu fiquei 90 dias no agreste pernambucano, temporada que resultou no meu livro Agridoce Agrestino.

Eu fui basicamente para fotografar a vida em torno da seca, mas o inverno chegou antes e trouxe a chuva, então encontrei um ambiente extremamente verde, cheio de vida e muitas festas locais.

 

 

Em vez de forçar um olhar estereotipado, me abri para escutar o que de fato as pessoas estavam querendo mostrar e acabei produzindo um trabalho sobre festas regionais.

Carnaval do Rio de Janeiro e Ilhabela

Uma coisa que sempre amei fotografar é o Carnaval, e já estou me perguntando como vai ser o do ano que vem. Acho que vai ser um resumo de tudo o que estamos passando.

 

santa teresa carnaval

 

Fotografei o carnaval do Rio de Janeiro e de Ilhabela, duas cidades onde morei. As interações que a gente tem na festa refletem muito a nossa cultura. Vivemos num país com uma distancia social muito grande, e no carnaval conseguimos representar e ser qualquer coisa. É um sentimento de liberdade.

O carnaval do bairro de Santa Teresa me traz uma conexão mais ancestral, é uma festa mais tradicional, assim como o de Ilhabela, que remonta a tradições antigas, como o Banho da Doroteia, que é um bloco que termina com as pessoas mergulhando no mar.

Viagens pós-pandemia…

Olha, pretendo ficar em isolamento, só que voluntário [risos]. Com certeza vou para o Sul de Minas, que é uma região que tenho um carinho e uma relação muito profunda. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho uma viagem para um projeto de livro do escritório de arquitetura do Gabriel Fernandes chamado Brasis que Vi. Seriam 12 meses e 12 estados diferentes, uma semana em cada estado fotografando formas de viver pelo Brasil.

Com a paralisação, o projeto vai para 2021 e, assim que voltar tudo de forma segura, vamos retomá-lo.

 

marcelo oseas


Veja também: Sobre relembrar viagens – a Noruega revisitada de Dani Pizetta

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