Trouxe na mala: as lembranças de Alexandre Disaro

 

Sempre que viaja (o que acontece com frequência, vale dizer), o fotógrafo Alexandre Disaro, do canal Viver a Viagem, procura conhecer a cultura do destino. Se for possível se hospedar na casa de uma família local, ou consumir o que eles produzem por lá, pode ter certeza que ele vai fazer.

“Grande parte do que eu trago de viagens é de produtos com histórias. Gosto de conhecer quem fez, as tradições, os temperos do lugar, o tecido típico…”, conta.

A seguir, ele compartilha o que trouxe na mala de viagens para o Uzbequistão, Quirguistão, Hong Kong, Mianmar, Islândia, Filipinas e Pernambuco.

 

Shyrdak quirguis

O shyrdak é o tepete tradicional do Quirguistão. Feito inteiramente de lã de ovelha é uma confecção tradicional, familiar e feito pelas mulheres. É item fundamental nas moradias nômades, as yurt – ou bozyu, como são chamadas por lá – para revestir toda a tenda, isolar o som, temperatura e conferir cor e conforto ao lar.

 

Shyrdak quirguis 2

 

O Quirguistão tem uma grande parcela de nômades de estação que com o final da primavera levam seus rebanhos para pastar em prados altos por até quatro meses. Levam consigo sua família e o essencial para caber na tenda. Tenho dois shyrdaks, um compramos na casa de uma pessoa onde ficamos e, inclusive, estava virado de cabeça para baixo pois a senhora achava feio e velho.

 

Shyrdak quirguis

 

O tapete verde e vermelho tem mais de 50 anos. O otro shyrdak é o da foto em que a moça costura. Fomos a uma cooperativa de mulheres e encontramos um outro shydak com mais de 70 anos. Por ser grande, pedimos para o cortarem em dois e cada um ficou com uma metade; algo como uma aliança para nós, símbolo de amor, parceria e companheirismo em todos os cantos do mundo.


Gongo do Mianmar

Visitamos o lago Inle no centro país, famoso pelos pescadores que usavam cestos para pesca antigamente. Hoje os pescadores usam os cestos apenas para alegrar os turistas. A pesca é feita com um dispositivo elétrico e uma rede mais eficaz. Contudo, há várias comunidades ribeirinhas pelo lago, além da convivência de quatro etnias.

 


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Ficamos amigos de um barqueiro no primeiro dia e ficamos com ele durante quatro dias. Fomos comprar comida no mercado e inclusive a família nos recebeu na sua casa. Noutra oportunidade conhecemos a vila do barqueiro (Ishan é o nome dele), uma vila de ferreiros. Vimos muitos instrumentos serendo produzidos com o ferro e acabamos levando um gongo para nos lembrar do vento no rosto e do cheiro do lago.


Lopapeysa da Islândia

A blusa de lã mais tradicional e símbolo cultural islandês é o lopapeysa. Feita inteiramente de lã islandesa, é fofa, volumosa e esquenta os dias mais frios. Com a lã também fazem meias, luvas e gorros. Para compra-la fui à uma cooperativa de mulheres que as confeccionam em diversas partes do país e revendem na capital, Reykjavík.

 


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Comprei uma versão com as cores cruas e originais de alguns tipos de ovelha. A mulher que teceu minha blusa vive numa fazenda em Vík, umas 2:30 de carro até a capital.


Ikat Usbeque

Visitamos Margilan, o epicentro da produção de ikat no Uzbequistão. Ikat é um nome dado ao tipo de tecelagem na qual ou o urdume ou a trama; ou ambos, são tingidos e trançados.

 

usbequistão

 

O ikat usbeque tem apenas o urdume tingido respeitando todo um gabarito de padronagens tradicionais e antigas. O ikat pode ser feito todo de seda ou misto, usando seda e algodão. Se for inteiramente feito de seda chama-se atlas, se for misturado se chama adras.

É um dos símbolos culturais mais fortes e é considerado tesouro nacional. O tecido é vendido por metro nos mercados e é usado para a confecção da roupa das mulheres. Depois de ter aprendido sobre a produção e dormido na casa de um mestre tecelão, fomos ao mercado comprar alguns metros para usarmos como almofada.


Carteira de tecido de plástico de Hong Kong

Há itens que os cidadãos de Hong Kong associam fortemente a sua cultura. Um desses itens é o tecido de plástico, geralmente com padronagens em tiras azuis, brancas e vermelhas.

 

hong kong

 

O tecido é usado para revestir estandes de feira, lojinhas, evitar que caia materiais em construções – inclusive por lá os andaimes são todos de bambu! – e outras tantas aplicações. Um artista plástico e designer de lá chamado Stanley (usa o nome the anothermountainman) incorpora esses tecidos em sua arte desde o começo dos anos 2000 para compor quadros, instalações e objetos como esta carteira.

 


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Depois de criado o design do produto, uma instituição de lá focada em tratar de pacientes com problemas de saúde mental confecciona parte dos produtos. A carteira carrega muito significado cultural pelo material empregado e pelo processo de confecção usando mão de obra de lá para criar algo com a cara de Hong Kong.

E o chaveiro traz dois ideogramas estilizados como caligrafia. Se lemos de um lado está escrito Hong Kong, se o viramos diz Jayou!, que é como um grito de guerra para seguir em frente e resistir. Uma forma de Hong Kong protestar contra a não anexação pela China com o término do regime de um país dois regimes.


Tingkep das Filipinas

Tingkep são essas cestarias que parecem uma cestinha. Elas são confeccionadas no sul da ilha de Palawan, nas Filipinas. Por lá, são usadas para armazenar frutas, grãos, caça, objetos de casa e como uma espécie de porta jóias.

 


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Visitamos Palawan e trouxemos de lá algumas tingkeps. Essa foto da mochilinha/bolsa não é um tingkep, mas uma bolsa de ratã. As Filipinas têm muita tradição em cestaria e cada cantinho do país tem uma forma diferente de trama e trabalho com a palha.


Pedidor de abraços de Caruaru-PE

A Armoriarte é a união do Yran com o Ementon na criação de um boneco de barro que é confeccionado pelos dois. Ementon trabalha com o barro e Yran faz a pintura. O Pedidor de abraço é um trabalho muito pessoal de ambos e parte da história de vida de Yran.

Quando era criança, ele conta que pessoas simples vinham pedir coisas em sua casa e seu pai doava. O que eles podiam dar em troca era abraço. Isso marcou a sua infância e hoje ambos confeccionam os pedidores de abraço para levar alegria e calor às pessoas.

A arte deles vem do movimento brasileiro armorial dos anos 70. O movimento armorial foi um movimento artístico que buscava valorizar e procurar na arte popular brasileira uma erudição.

 

pedidor de abraço

 


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